AMOR E PENSAMENTO: Tensão e Complementariedade 

 

A grande lei do cristianismo é amar à Deus e ao próximo, como Jesus amou. O amor ao próximo de Jesus é bem diferente do amar como a si mesmo, do Antigo Testamento. Amar como Jesus é impossível ao ser humano se não houver a graça que vem de Deus. Por isso estar intensamente vinculado amorosamente a Deus é condição para amar outras pessoas como Jesus. “Vinde Espírito Santo, enchei nosso coração com o fogo do vosso amor. E renovaremos a face da Terra”. Só assim.

Mas o cristianismo é também um modo de pensar o mundo, delineado a partir da palavra revelada na Bíblia, das reflexões e conclusões sistematizadas por sua igreja e pelos ensinamentos de seus santos e líderes. Esse pensar o mundo não é único. Há várias teologias. Teologia é conjunto organizado de perspectivas interpretativas, construídas a partir do pressuposto da fé cristã. Há fortes tensões e complementariedades entre essas diferentes teologias.

Os modos de pensar o mundo, provenientes do cristianismo, por sua vez, dialogam e enfrentam outros modos de pensar a vida presentes na sociedade. Filosofias, ciências, ideologias e leituras poéticas. Tensão.

O pensar o mundo pode ajudar o amar. Mas comumente afasta o amor.

 O embate teórico torna o coração endurecido. No afã de ganhar o embate para tornar mais conhecida a própria perspectiva de orientação da vida (e assim torná-la mais espalhada e enfrentar o que serias erros), nossa abertura ao outro, que está próximo, fica secundarizada. As raivas vindas do embate, fecham para o amor.

Entre os vários grupos cristãos, os conflitos pela legitimidade superior de suas leituras do mundo costumam transformar a amorosidade em ódio e intolerância.

Sociedade dividida por conflitos. Separada. Pouco amorosa.

Os trabalhadores de saúde do SUS têm um privilégio: o dever ético e profissional de atender a todos que lhe buscam. A todos, independentemente de sua condição material, religiosa, sexual, cor, política e classe social. De forma integral. É uma grande oportunidade para aproximar e amar o outro que, com tantas diferenças, busca ajuda. Este acolhimento universal, definido profissionalmente, é também oportunidade para superar as intensas divisões que vêm separando os grupos sociais.  No atendimento compreensivo e dialogado, muitos preconceitos e fechamentos costumam se desfazer. Poucos trabalhadores têm acesso, assim tão próximo, aos meandros da vida pessoal e familiar de outros. A proximidade abre portas para o encantamento com a diversidade e intensidade da busca humana por ser mais. No entanto, muitas vezes, esse acolhimento universal e integral não é conseguido pelas limitações dos serviços e da formação profissional.  Mas é buscado e cobrado.

O trabalho profissional de saúde é uma oportunidade de aprendizado do amor. Neste Blog há uma pequena reflexão nessa perspectiva. Veja em https://saudejusticacomjesus.blogspot.com/2022/04/amor-dimensao-propriada-espiritualidade.html

No entanto, o campo da saúde é também atravessado por muitos conflitos de propostas e leituras da realidade, principalmente nos núcleos de gestão dos serviços, nas instituições de formação profissional e entre os pesquisadores. Conflito gerador de debate que esclarece, mas também de fechamentos ao outro.

Em Cristo, o amor vem primeiro. O pensar decorre do amor. Se alimenta e se orienta nele. Pensar molhado de afeto.

Um grande desafio: manter a abertura amorosa a quem me procura em meio a tantos conflitos, cansaços e injustiças profissionais. Oração e reflexão. Em situações de extrema vulnerabilidade e dor, usuais no cuidado em saúde, a insensibilidade, desatenção e grosseria tornam-se massacrantes. E pequenos gestos amorosos surpreendem terapeuticamente.  

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