MÍSTICA E CIÊNCIA, 2 CAMINHOS DE CONHECIMENTO DA ESPIRITUALIDADE BEM ESTRUTURADOS TEORICAMENTE
A valorização da espiritualidade na medicina e na saúde
pública iniciou-se pelo desenvolvimento de amplos estudos científicos que
demonstraram a sua importância no cuidado de pacientes e na prevenção dos
problemas de saúde. Eu mesmo tenho alguns textos que sintetizam essa construção
acadêmica baseada no método científico, com grande valorização de estudos
estatísticos comparativos. Ver em https://drive.google.com/file/d/1ZdITsMvmHWpMA5_CZinmuk2P65VF6kHz/view?usp=sharing
A primeira postagem deste Blog é uma discussão sobre os
limites do método científico para o estudo dessa questão concreta: as
possibilidades e caminhos da espiritualidade no campo da saúde. https://saudejusticacomjesus.blogspot.com/2022/04/insuficiencia-dos-estudoscientificos.html
Mas que outro caminho temos para conhecer a vida espiritual?
A reflexão acadêmica sobre a vida religiosa teve uma
importante contribuição de Rudolf Otto, alemão que viveu entre 1869 e 1937 e é
considerado um dos iniciadores do campo de estudo que passou a ser denominado
depois de ciência das religiões. Havia, na época, um grande interesse acadêmico
de estudar a vida religiosa através da comparação entre as diversas religiões não
europeias, que o contato com povos na América, Asia e África vinha propiciando. Para
Otto (no livro O Sagrado, publicado inicialmente em 1917), não se estava
percebendo uma dimensão central da vida religiosa ao se ressaltar e estudar
comparativamente principalmente as suas diferenças, pois em todas elas havia um
elemento comum fundamental, a experiência do numinoso.
Mas o que é “experiência do numinoso”? Primeiramente, experiência subjetiva se refere a um modo de conhecer que extrapola a percepção
racional e clara e inclui percepções e elaborações provenientes da emoção,
sensibilidade e intuição. Carl Jung afirma que há 4 dimensões da elaboração
subjetiva: razão, intuição, emoção e sensibilidade. Uma experiência seria numinosa
na medida em que é tremenda, fascinante e transformadora. Gera um misterioso e
intenso fascínio diante de certas realidades, ritos, acontecimentos, que
apodera fortemente a pessoa que a vivencia, por anunciar a presença de algo que
transcende a realidade normalmente percebida no cotidiano da existência. Depois
de experiências assim não se é mais como antes.
A valorização da experiência religiosa, que vai muito além
do que pode ser dito e teorizado, começou a ser ressaltada pela ciência da
religião com Rudolf Otto, inaugurando o que passou a ser chamado de
fenomenologia da vida religiosa, mas é um elemento milenar da vida religiosa na
humanidade. O conceito experiência do numinoso deu visibilidade teórica e
social a essa realidade, que é banal e óbvia a quem vive a vida espiritual de
forma intensa, apesar de pouco anunciada teoricamente (“diante do que vivi, eu
me calo, não porque não tenha o que
dizer, mas porque tudo que eu disser é insuficiente para expressar o que vivi”,
frase da poeta mexicana Soror Juana do século XVII) mas que estava
invisibilizada na cultura racionalista da modernidade, que tende a valorizar
apenas os conhecimentos racionais claros e logicamente estruturados,
principalmente quando produzidos por estudos cientificamente controlados.
Na verdade, essa experiência do "excesso que transborda" não é
novidade na história do pensamento ocidental, pois está presente na formulação
de grandes pensadores, desde a Grécia Antiga, com importante participação de
Platão e Aristóteles. Na filosofia, esse campo de estudos e reflexão vem sendo
denominado de mística e de metafísica.
Cada tradição religiosa tem caminhos próprios (textos
sagrados, rituais, formas de oração, saberes sistematizados por sua comunidade
de fé e por seus líderes e santos) para aproximar e conhecer a transcendência.
Para conhecer aquilo que vem da espiritualidade. Mas, muitas vezes, são
caminhos pessoais pouco organizados teoricamente e não aceitos por pessoas de
outras tradições. A mística e a ciência são caminhos bem estruturados
academicamente de conhecimento da espiritualidade. Os estudos da mística são
uma tentativa de sistematizar o que acontece nessas experiências mais pessoais
e comunitárias de forma bem difusa na humanidade, mas de forma especial em alguns religiosos. É uma elaboração teórica que
permite a criação de diálogo e compreensão entre pessoas das diversas
tradições.
A experiência mística é, pois, frequente na humanidade.
Porém, poucos escrevem sobre ela de forma organizada. O livro “Narrativas Místicas,
antologia de textos místicos da história do cristianismo” (Paulus, 2016)
sistematiza textos fundamentais de cristãos, que vêm escrevendo, de forma
organizada, sobre a experiência mística, desde a antiguidade.
No Brasil, vários pesquisadores e grupos de pesquisa têm se
dedicado ao estudo e produção teórica sobre mística. Um deles, o Apophatiké (https://apophatike.wixsite.com/apophatike)
, reúne pesquisadores de diferentes estados brasileiros e criou, no YouTube, uma série de vídeos muito interessantes sobre diferentes aspectos do tema. Vou
aproveitar alguns deles para introduzir, de forma sintética, o início da
discussão sobre o tema.
O primeiro trecho de vídeo que trago aqui sobre o que seria esse campo de
estudos da mística é do professor de filosofia da UFF, Marcus Pinheiro (https://youtu.be/Tlfo1ONzxqM?t=153
que coloquei para começar no minuto 2:33 e sugiro ir até o minuto 12:30,
portanto 10 minutos).
O segundo trecho de vídeo, um pouco mais longo é uma
conversa entre a professora Maria Clara Bingemer ( PUC – Rio) e o professor
Eduardo Losso (UFRJ) sobre o conceito de mística: https://youtu.be/aELzw3bru18?t=1638
(começa no minuto 27 desse debate e sugiro ir até o minuto 60, portanto 33
minutos).
Este grupo Apophatiké acabou de publicar o livro A Mística e
os Místicos (Vozes, 2022, 630 p.), que organiza textos de análise sobre as
diferentes perspectivas de mística ao longo da história humana, iniciando pelo
judaísmo e os gregos, na Antiguidade, indo até diferentes místicos e tradições religiosas na contemporaneidade.
A medicina tem uma tradição milenar de diálogo com a
filosofia. Desde Hipócrates. A superação do modelo biomédico, que transforma os
profissionais de saúde em mecânicos de gente, depende muito de um retorno à valorização
desse diálogo. Principalmente quando tratamos da dimensão espiritual do cuidado
em saúde.
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