O MODO COMO JESUS
LIDOU COM SUA MORTE COMO REFERÊNCIA PARA O CUIDADO EM SAÚDE.
O morrer é uma das situações existenciais mais densas.
Misturam-se dor, medo, revolta, intensas reflexões, sensação de abandono e
solidão, experiências especiais de acolhimento amoroso, vergonha pela grande
exposição de fragilidades e intimidades, desânimo etc. Muitas vezes, tudo
acontece de maneira tumultuada e confusa. Não é fácil cuidar dessas situações.
O surgimento da tanatologia, dos cuidados paliativos e de
vasta produção bibliográfica sobre o cuidado no morrer têm criado uma situação
um pouco mais confortável para os profissionais de saúde. Eles têm ajudado na
orientação de um cuidado que consiga diminuir o sofrimento físico e
psicológico, solidão, desconforto e abandono, usuais nesse momento.
Numa perspectiva cristã, a morte é momento de imensa
importância e significação pessoal, familiar e comunitária para preocuparmos
apenas com o alívio do sofrimento e um certo conforto. A intensa emoção e
mobilização familiar, que lhe cerca, trazem a possibilidade de ser momento extremamente
transformador. Jesus nos ensina ir além.
A morte de Jesus foi dramática. Ele tinha clara consciência
de sua proximidade e de seu modo sofrido e humilhante. Uma morte extremamente
injusta, planejada e acompanhada da traição de um de seus discípulos. Tudo isso
não lhe fez fugir e recuar do seu propósito. Mas muitos outros heróis da
história humana tiveram também essa bravura. O que mais o diferenciou foi ter
conseguido não endurecer o coração para tolerar o sofrimento e, sim, nesse
momento, ampliado sua amorosidade. Tornou seu morrer em sua maior lição.
Na véspera de sua eminente prisão e já sabedor da traição,
fez questão de reunir seus principais seguidores. Mostrando estar com a mente
livre da raiva, revolta ou desânimo, buscou transmitir os últimos ensinamentos
fundamentais para a continuidade de sua missão. Fazer as últimas exortações. E
expressar de forma intensa os sentimentos profundos que aquele momento final
fazia emergir. Lavou os pés de cada um, inclusive do traidor, num gesto de
grande simplicidade, carinho e perdão. Deixou-lhes um precioso presente, a Eucaristia,
que os acompanharia no futuro. E não escondeu seu sofrimento. Pediu-lhes que o acompanhassem e o apoiassem
no momento de sua prisão, que aconteceria logo depois. Encontro sofrido, mas
denso em ensinamentos, afetos e exortações fundamentais. Encontro que marca a
igreja até hoje.
Sua tortura foi monstruosa. O método romano de tortura e
morte, a crucificação, além da perfuração brutal dos pés e das mãos com grossos
pregos, gera um grande dilema doloroso: o relaxamento faz com que o peso do
corpo diminua a capacidade de respiração torácica, causando sufocamento. O
levantar-se, apoiando nos pés e mãos perfurados, aumenta a dor. Tudo
acompanhado de intensa humilhação, zombaria, espancamentos e coroa de espinho.
A morte de muitos de nossos pacientes também passa por sofrimentos monstruosos,
por caminhos diferentes, mas também cheios de angústias. Mas eles podem ter, em
Jesus, uma referência.
Mesmo sob essa intensa tortura e humilhação, continuou com o
coração aberto à compreensão: “Pai, eles não sabem o que fazem”. Cuidou de um
dos seus dois companheiros de crucificação, que se mostrou aberto à sua
palavra. Procurou cuidar do futuro de sua mãe e seu discípulo João, que estavam
próximos, orientando que um cuidasse do outro. Mas principalmente, continuou
orando até o final: “Pai, em suas mãos entrego-lhe meu espírito”.
Amando a humanidade, amou-a até o fim. Sempre ligado à Deus
Pai pela oração, manteve orante até o fim.
A tortura, o abandono de muitos amigos (como Pedro) e a
humilhação, por parte de muitos que ele tinha antes ajudado, não lhe tiraram
seu espírito da faixa do amor. Antes de tudo porque sabia que não estava
sozinho: Deus estava com ele e o amava intensamente. E da certeza de que a
morte não era o fim. Muitos de nossos
pacientes, sofrendo com a situação de proximidade da morte, também têm essa fé.
Muitas vezes, falta-lhes apoio para que essa fé e suas orações, fontes de
amorosidade, mesmo no fim, não sejam embaçadas pela dor, revolta e afastamento
de seus grupos religiosos.
Jesus nos traz uma referência audaciosa para nosso cuidado
no morrer: que esse tempo, tão denso e gerador de intensos aprendizados, seja
não apenas menos sofrido, mas amoroso. Que seja momento de revisão compreensiva
da vida familiar. Momento de decisões necessárias para o futuro, orientadas
pelo carinho e compromisso amoroso com aqueles que ficam e com quem vai.
Momento de ligação mais forte, pela oração, com o Mundo dos Céus, que perdura ao
Mundo da Terra. Nada disto é estranho à maioria dos nossos pacientes e dos
profissionais de saúde, que, com intensidades e modos variados, costumam
desejar tudo isso. Sentindo essa abertura, nós profissionais de saúde temos
muito o que ajudar com nossos apoios, medicamentos e oração. Inspirados em
Jesus.
A fé cristã está presente na maior parte das situações de
cuidado no morrer aqui na América Latina. É preciso superar o constrangimento de
colocá-la no centro do cuidado, quando os envolvidos a professam. Quem já
experimentou, sabe da sua potência como ato terapêutico voltado para integralidade.
Mas é preciso inicialmente ter coragem para romper com a cultura da modernidade
dominante no modelo biomédico.
É de suma importância o olhar a este cuidar do processo natural do ser humano que é a morte. E partir da forma que Jesus vivenciou a sua é amadurecer a espiritualidade nossa de cada dia, é se preparar pra tirar a cruz de muitos dos nossos que aínda padece nas filhas de espera por uma morte humanizada. Parabéns Professor pela coragem de debater este tema
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