A IDOLATRIA DA SAÚDE E FORMOSURA DO CORPO.

  

A luta pela saúde vem mobilizando grupos e organizações de todo o mundo e tem sido importante na conquista de melhores condições de vida e no aperfeiçoamento das políticas públicas. A preocupação com a saúde vem transformando modos antigos de viver que a ciência mostrou serem prejudiciais. É bonito ver pessoas, das mais diferentes idades e origens sociais, cultivando o vigor físico, a beleza e o prolongamento da vida. Mas, sem percebermos, esta valorização da saúde está também se transformando em fonte de doença e de afastamento do viver pleno.

A produção da saúde passou a ser espaço de florescimento de uma complexa e rica rede de empresas. Clínicas estéticas, revistas, academias, programas de televisão, aparelhos de exercício, cursos de novas técnicas de cuidado do corpo e da mente, alimentos dietéticos, clínicas das mais diversificadas medicinas alternativas, produtos de beleza, novas profissões e especialidades médicas e sites na Internet: todas essas coisas sustentam um amplo conjunto de profissionais e empresas que precisam aumentar o consumo de seus produtos para aumentar seus lucros. As pessoas estão sendo bombardeadas por propagandas de intermináveis produtos e serviços de saúde. Os meios de comunicação de massa vão impondo uma referência de pessoa saudável baseada em jovens atores e modelos profissionais que só aparecem maquiados e sob ângulos selecionados. A saúde é, cada vez mais, entendida como formosura do corpo, comportamento juvenil e bom preparo físico. Diante desta referência fabricada de pessoa saudável, ninguém tem saúde plena. Todos precisam consumir mais e melhores produtos e serviços de saúde. Precisam de novos hábitos de vida. Propagandeia-se a mentira de que as insatisfações profissionais, amorosas e familiares vão ser resolvidas pelo consumo individualista de novas técnicas e produtos de saúde.

A saúde passou a ser muito mais do que cultivada. Passou, por muitas pessoas, a ser adorada. O corpo vigoroso tornou-se um ídolo, diante do qual, a maioria venera.

Esta preocupação exagerada com o corpo cria nas pessoas uma visão superficial e individualista do que é saúde. Esta busca obsessiva pela saúde está gerando uma hipocondria (fixação na preocupação de estar sempre com doenças), aumentando a insatisfação e tornando as pessoas ansiosas, pois nunca são capazes de consumir os diversos produtos anunciados, implementar os infindáveis comportamentos saudáveis e se submeter às variadas técnicas terapêuticas. Seus corpos estão sempre devendo diante do padrão anunciado.

O ser humano é marcado por precariedades físicas, psicológicas e morais. Assumir estas precariedades e peculiaridades, que cada um carrega, pode ser humanizador, na medida em que nos salva da pretensão soberba de sermos totais. São justamente estas fragilidades e precariedades nos abrem para os outros e para a transcendência, impedindo o fechamento egoísta em nós mesmos. Nossas peculiaridades marcam a forma própria como podemos contribuir para a sociedade e nos fazem dependentes das qualidades dos outros. Nossas precariedades e as peculiaridades nos abrem para a relação solidária e para a amorosidade, que são bases de uma saúde social e individual plena. O ser humano se realiza na relação intensa com os outros. É impossível ter saúde de forma individualista. Envolvidos com a perseguição exagerada da saúde, não aceitamos os nossos limites. Passamos a lutar contra o que é inerente ao nosso ser e não a procurar reconciliar com ele. Ficamos divididos e tensos. Superficiais.

Neste sentido, tenho observado como a vivência de doenças graves tem salvado muitas pessoas da ilusão de felicidade e saúde baseada na conquista individual da formosura, vigor físico, sucesso e riqueza. Na doença, descobrem a amorosidade e a sua força. Descobrem o quanto perderam de tempo e energia na batalha individualista pela felicidade, confiantes na potência de seus próprios esforços e dos produtos disponíveis no mercado.

A idolatria do corpo formoso, jovem e vigoroso nos impede de encarar, de frente, a realidade da vida humana que é limitada e marcada pela morte. Mesmo com o consumo de todos os produtos de saúde, a implementação de todas as técnicas médicas e o seguimento de todos os bons hábitos de vida, nós vamos morrer por meio de doenças e com algum sofrimento. Saúde é também uma adaptação equilibrada e habilidosa ao sofrimento, deficiência, doença, envelhecimento e morte que atingem a vida de todos. Neste sentido, esta preocupação exagerada e individualista com a saúde tem aumentado o sofrimento das pessoas, pois as desvia da busca de caminhos espirituais ou sociais de adaptação criativa para a dor e os defeitos que todos têm. É uma idolatria que insinua a promessa de saúde e juventude eternas, mas que está gerando mais insatisfação e angústia, base de novos consumos e novos lucros para a imensa indústria da saúde.

Saúde plena é entrega apaixonada ao jogo da vida. Viver intensamente o amor, aberto para o imprevisto. Não nos entregamos com garra e alegria se estamos apegados à preservação de detalhes do nosso corpo e ao medo da dor e da morte ou fixados no conserto dos nossos inúmeros pequenos defeitos e ressentidos com as perdas que vão se acumulando. Entregar-se sem medo da cruz. Sem apego às perdas. Só assim, ficaremos realmente abertos para experimentar e saborear as surpresas de cada dia desta aventura amorosa que vida pode ser. Que bom quando aprendemos a usar os novos e inúmeros serviços, produtos, informações e tecnologias de saúde para nos fortalecer nesta entrega amorosa e não para nos escravizar e enrijecer!

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